A EOS – Associação de Estudos, Cooperação e Desenvolvimento iniciou a implementação do projeto “OnlyFans e a nova face da exploração sexual das mulheres”, dedicado ao estudo das novas formas de exploração sexual e violência contra as mulheres no espaço digital.
A iniciativa centra-se na análise da plataforma OnlyFans e das dinâmicas de monetização da intimidade online, procurando compreender os impactos sociais, económicos e psicológicos destas práticas, particularmente entre mulheres jovens.
Primeira fase: investigação
A fase inicial do projeto é dedicada à investigação e enquadramento do fenómeno.
Está em preparação uma publicação baseada na investigação provisoriamente intitulada “Dos filmes pornográficos ao OnlyFans: Uma análise da indústria do sexo em Portugal”, que será disponibilizada em formato digital e papel, acompanhada de três materiais informativos acessíveis ao público.
O estudo inclui análise qualitativa baseada em experiências reais de mulheres afetadas por assédio, perseguição e divulgação não consentida de conteúdos íntimos online.
Próximos passos
Em 2026 serão realizadas atividades públicas como:
- ações de conscientização em universidades;
- campanha digital;
- debates com jovens e organizações;
- elaboração de recomendações políticas.
As sessões com estudantes do ensino superior irão promover reflexão crítica sobre cultura digital, violência sexual online e desigualdades entre mulheres e homens.
Um debate necessário
O projeto pretende contribuir para um debate público informado sobre a relação entre plataformas digitais, economia baseada na exploração e direitos humanos das mulheres, bem como para a melhoria das respostas institucionais de prevenção da violência sexual online.
Nos últimos anos, o OnlyFans tornou-se uma das principais plataformas associadas à mercantilização do corpo das mulheres e raparigas. Embora seja frequentemente apresentado como um espaço de “empoderamento” e autonomia financeira, a realidade mostra que a grande maioria das criadoras aufere rendimentos muito baixos – cerca de 58€/mês, enquanto apenas 1% ganha valores elevados.[1] Esta promessa ilusória atrai sobretudo mulheres jovens, muitas vezes em situação de particular vulnerabilidade económica.
O modelo da plataforma assenta na criação de relações parassociais entre criadoras e subscritores, incentivando uma constante disponibilidade emocional e sexual. Para manter rendimentos mínimos, muitas mulheres sentem-se pressionadas a produzir conteúdos cada vez mais explícitos, a responder permanentemente a mensagens e a ceder a pedidos abusivos, ficando expostas a assédio, violência sexual e dependência financeira.[2]
Em Portugal, apesar da falta de dados sistematizados, já existem sinais preocupantes, como casos noticiados de jovens geridas por “managers” em esquemas semelhantes ao proxenetismo.[3] Internacionalmente, multiplicam-se relatos de exploração, isolamento e até tortura associados à produção de conteúdos na plataforma. A normalização mediática destas dinâmicas contribui para invisibilizar a violência e reforçar estereótipos que responsabilizam as mulheres pelos abusos sofridos.
Num contexto em que persistem atitudes de culpabilização – quase 15% das pessoas em Portugal justificam a violência sexual se a vítima estiver alcoolizada, e 57% dos homens responsabilizam parcialmente mulheres que partilham conteúdos íntimos[4] – torna-se urgente desmistificar a suposta neutralidade destas plataformas.
[1] Fonte: XSRUS. (s/d). The Economics of OnlyFans. Recuperado de https://xsrus.com/the-economics-of-onlyfans
[2] Fonte: Diversas fontes internacionais (BBC, The Guardian, Rolling Stone, NYT): reportagens sobre exploração sexual e abusos em plataformas digitais, incluindo OnlyFans. Exemplos: OnlyFans model Lily Phillips cries after sleeping with 101 men in a day; Enslaved on OnlyFans: Women describe lives of isolation and torture.
[3] Fonte: Jornal de Notícias. (s/d), Nudez e conexão: Jovens portugueses ganham fortuna com vídeos sexuais. Recuperado de https://www.jn.pt/nacional/videos/nudez-e-conexao-jovens-portugueses-ganham-fortuna-com-videos-sexuais–16110753.html/
[4] Fonte: Jornal O Público (25.02.2025), Quase 15% culpam a mulher se for vítima de abuso sexual enquanto alcoolizada. Recuperado de https://www.publico.pt/2025/02/25/sociedade/noticia/quase-15-culpam-mulher-vitima-abuso-sexual-alcoolizada-2123784